tinteiro digital

2011/04/12

Nada como um autor pré-socrático…

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A comédia de Aristófanes, revisitada: na peça "Os Cavaleiros", Demósteles encoraja Agorácrito, fabricante de chouriços, a enfrentar o adversário político Paflagónio:

image "É ridiculamente fácil. Continua a fazer o que fazes. Faz uma mistura completa de assuntos públicos, mistura as coisas, como um enchido, e conseguirás juntar pessoas à tua volta com pequenas frases bem amanhadas para lhes agradar. As outras qualidades de que um líder político necessita já as tens – uma voz desaimagegradável, falta de vergonha – e, mais ainda, és um produto do mercado. Tens todas as qualidades essenciais para a política. Os oráculos estão de acordo. Por isso, enfeita-te com grinaldas, faz uma oferta ao deus dos idiotas e atira-te a esse homem.”

Aristófanes, Os Cavaleiros, 290-305

2011/04/09

O discurso do quase

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O Dr. Passos Coelho disse que é possível ter um bom governo apenas com 10 ministros. Esta revelação revolucionária pode ser escutada no site oficial. Claro que é possível! Se o PSD ganhar as eleições, se arranjar ministeriáveis dois em um, se conseguir que o CDS se contente com um ou dois, se conseguir que o PSD conceda um ou dois ao CDS. O momento político pré-eleitoral é como um poema de Kipling, com muitos “ses”.

Traído pela sua condição de “quase”, Passos Coelho disse que este governo “tem quase 16 ministros” (quem será o quase ministro?). Mas a questão de fundo não é a do número de ministérios. Confundir o peso da “máquina do Estado” com o número de ministros é um pensamento quase. É verdade que o nosso sistema cria “ministérios” desnecessários como o de “ministro da presidência” (porta-voz) ou dos “assuntos parlamentares” (espécie de “oficial de ligação”). Mas não é isso que pesa na “máquina do Estado”. O governo até pode ter 50 ministros e não é por isso que o Estado é pesado. Pode ter 5 e a “máquina do Estado” ser pesada e gastadora. O problema não é esse. O problema está em coisas como as seguintes:

– Cada ministro a mais significa mais um gabinete de assessores, consultores, técnicos e “cargos de confiança política”, bem pagos e sem qualquer limitação legal e remuneratória;

– Cada ministro a menos significa mais secretarias de Estado, com delegações de competências e com os seus próprios séquitos de assesores, consultores, etc….;

– Cada ministro a menos significa a necessidade imperiosa de “arrumar” os ministeriáveis, os notáveis, os “boys” e até alguns adversários, num qualquer outro cargo onde sejam recompensados ou, pelo menos, onde fiquem entretidos e neutralizados…;

– Portugal não tem uma Administração Pública. Tem várias, desdobradas e sobrepostas, num emaranhado institucional que desactualiza todos os manuais de direito administrativo. Ao lado da pirâmide clássica  das secrtetarias, direcções gerais, repartições, secções, delegações, tem inúmeros enxertos autónomos, como Agências, Entidades Reguladoras, Institutos, Comissões e até “empresas”…;

– O “sector empresarial” é outra área de multiplicação: há muito que deixámos de ter apenas EP, há também as empresas privadas de capitais exclusivamente públicos, as empresas privadas de capitais não exclusivamente públicos, mas em que os accionistas não públicos são outras entidades públicas, empresas participadas, empresas privadas concessionárias de serviços públicos, holdings que apenas titulam participações, mas que têm administradores à dúzia, etc.;

– Não há um Estado, mas vários. A subdivisão há muito que passou dos limites. Tornou-se moda dizer que há funcionários públicos a mais, mas pouco se fala do número de “funcionários de nomeação política”. O chamado “arco da governação” é o mercado das nomeações. O “vínculo à função pública” foi gradual mas despudoradamente substituído pela nomeação. Basta ler os Diários da República para ver como a arte da governação passa por transformar os nomeados em funcionários. E todos ficam por lá…;

– A chamada regionalização, eternamente no prelo, não é boa nem má. Pode ser uma ou outra coisa. E todos sabemos que pende mais para ser má. Representa um risco de se criar mais um “nível” de multiplicação de cargos, órgãos e outras invenções organizativas e burocráticas, entre a pesada máquina do Estado e as pesadas máquinas de pelo menos algumas Autarquias;

O nosso sistema já não é um rotativismo (como no passado entre “regeneradores” e “progressistas”). Só há rotação no topo. Abaixo, logo abaixo, o que há uma dança das cadeiras à qual se vão adicionando sempre mais cadeiras, para que todos se possam sentar. E sempre que falta uma cadeira, há sempre um carpinteiro para a fazer. A “dança” não é para saber quem fica sem cadeira – é apenas para escolher a melhor cadeira.

A ver vamos se o próximo governo – tenha ele quantos ministros tiver – altera este estado de coisas.

Para memória, registe-se que Passos Coelho não disse que formaria um governo com 10 ministros. Disse apenas que era possível. Um “quase” muito grande.

Fashion victims

Filed under: Falta de tinta — tinteirodigital @ 15:45
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Está na moda chamar mentiroso a José Sócrates. Aliás, está na moda ser malcriado e chamar mentiroso a quem não nos agrada. Como se fosse coisa de somenos.

O Prof. Medina Carreira, quando foi Ministro das Finanças, desvalorizou o escudo poucas semanas depois de dizer que tal não sucederia. Houve quem lhe chamasse mentiroso.

O Dr. Miguel Cadilhe, quando exerceu tal cargo, chegou a garantir – contra todos os economistas e todos os comentadores – que a inflação não subiria. Mas a inflação, ingrata continuou a subir. Também lhe chamaram mentiroso.

O Eng. José Sócrates, Primeiro Ministro, repetiu até à náusea, que Portugal não precisava de ajuda externa. Depois, teve que a solicitar. Inevitavelmente, é apelidado de mentiroso.

Com um pouco – apenas um pouco – de boa educação, esta mania de chamar mentiroso notar-se-ia menos. Com um pouco – apenas um pouco – de inteligência, as vítimas da moda, pensariam duas vezes. In illo tempore, o Prof. Medina Carreira chegou a explicar – na altura com mais paciência – que as desvalorizações da moeda não se anunciam a não ser quando são decretadas e explicou porquê. Qualquer aluno de economia (e qualquer pessoa inteligente) percebe. O Dr. Miguel Cadilhe não mentiu – fez o que qualquer Ministro das Finanças competente tinha que fazer. Se ele tivesse admitido que a inflação ia subir (e nessa altura a inflação portuguesa era quase latino-americana), a taxa teria subido mais e mais depressa. Digam o que disserem, Medina Carreira e Miguel Cadilhe estão entre os ministros das finanças do período democrático que enfrentaram maiores dificuldades. Podem ter errado numa coisa ou outra, mas fizeram o que deviam. O Prof. Teixeira dos Santos também pode ter falhado numa ou outra decisão, mas, digam o que disseram, conquistou, pelo menos, o direito de figurar na mesma galeria.

Podemos discutir se Portugal devia ter pedido a “ajuda externa” mais cedo. Questão em aberto. Até podemos discutir se este tipo de “ajuda” merece esse nome. Mas chamar mentiroso ao PM por causa disto não é só falta de educação. É o defeito de duas espécies de pessoas: as que falam sem saber e as que, embora sabendo, falam a contar com a ignorância ou desatenção dos outros.

A verdade é que se o PM tivesse dito mais cedo que Portugal precisava de ajuda, o pedido de ajuda teria necessariamente que vir mais cedo.

Sejamos, por isso, mais cautelosos, perante o delírio de má criação que invadiu tantos dos nossos políticos. Ninguém é tão lesto a chamar mentiroso como um mentiroso impenitente.

Maquiavel não é para aqui chamado. Nem Sócrates é um príncipe, nem Maquiavel era maquavélico. E para ser ter capacidade de perceber “O Príncipe” não basta ter uma pitada de literacia. É necessário ter educação.

2011/03/29

Carta da Irlanda, with love

Filed under: Escrita grossa — tinteirodigital @ 14:29
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Chegou uma carta da Irlanda, que explica o real significado de “bailout”:

“Deixem-me que vos diga, este “resgate”, quando inevitavelmente vos for imposto, não só não vos vai tirar dos vossos problemas actuais como ainda vai prolongar os vossos problemas por várias gerações” (Allow me to warn you, not only will this bailout, when it is inevit-ably forced on you, not get you out of your current troubles, it will actually prolong your troubles for generations to come”).

Mas o melhor é ler a carta na íntegra. Tal como o “Independent.ie” a publicou.

2011/03/24

Obscuridades cintilantes

Filed under: Falta de tinta — tinteirodigital @ 16:42
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Não faltam por aí políticos, comentadores e até economistas que repetem que os juros da dívida pública sobem porque os mercados perderam a confiança em Portugal. Nada mais errado. Se não existisse confiança, os investidores não emprestariam. O que faz subir os juros não é o simples jogo da oferta e da procura mas a posição negocial. Os investidores sabem que o Portugal está aflito e aproveitam-se disso. E quanto mais aflito estiver, mais os juros subirão.

Há um tipo de investidores que trocam risco por juro, ou seja, que fazem investimentos de risco desde que os ganhos sejam superiores ao normal. Mas os títulos de dívida soberana dos países da zona euro não são simples “junk bonds”. É verdade que os mercados financeiros têm sido geridos como casinos. É verdade que muitos investidores actuam como jogadores. Mas isso não justifica que economistas esqueçam o que aprenderam (ou deviam ter aprendido…).

Há muito tempo que vozes menos cintilantes disseram que Portugal só pimageode sair da aflição se PRODUZIR MAIS e se VENDER MAIS. Medina Carreira foi uma dessas vozes. Mas os políticos mainstream fizeram tudo (por acção e omissão) para tramar a produção nacional (Mira Amaral, por exemplo, chegou a dizer que um país moderno e europeu não deve ter política industrial). Jerónimo de Sousa também tem sido incansável a defender a produção nacional (talvez porque o seu partido se cansou a tramar muitos empresários nacionais).

Sucede que vozes como Jerónimo de Sousa e Medina Carreira são como os velhos de “Os Marretas” – estão no camarote. O trabalho de reactivação da produção nacional devia estar no palco e na ribalta!

Mesmo à rasca

Filed under: Escrita grossa — tinteirodigital @ 14:35
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O CDS-PP publicou um resumo das remunerações dos gestores públicos.

Qualquer comentário é desnecessário.

A oposição não tem conhecimento…

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“O líder do PSD revelou em Bruxelas que só o Governo pode dizer se Portugal precisa de recorrer ao fundo de resgate europeu, já que a oposição não tem conhecimento da verdadeira situação financeira de Portugal”. É o que diz hoje o site do PSD.

Os portugueses sabem como estão. O Governo andou a alterar os números (para pior) mês a mês. Os jornais não falam de outra coisa. Todos os dias, e alguns dias hora a hora, a rádio fala da taxa de juro da dúvida pública. Até os “observadores” do outro lado do Atlântico fazem comentários. Nunca as ratings dedicaram tanta “atenção” a Portugal. Os relatórios são públicos. Mas o PSD não sabe.

E como não sabe, derruba…

2011/03/23

Marketing político

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A praga dos wanna be’s

Filed under: Escrita grossa — tinteirodigital @ 22:26

José Sócrates saiu pelas suas próprias condições. Passos Coelho fala assumindo que vai ser primeiro ministro e disse que está tranquilo. É normal que esteja porque em caso algum terá que governar (se for indigitado, o FMI fará o serviço). Na A.R., deu-se mais um espectáculo de má educação. Já não bastava a falta de elegância. Já não bastava a supina ignorância de tanta gente de “primeira linha”. Agora chamam-se nomes e trocam-se insultos. Tempos houve em que palavras como “o senhor mentiu” ou “não tem qualquer ponta de seriedade”, etc. dariam pedido de desculpas ou duelo. Mas hoje não. Conheço tascas onde há mais respeito do que na Casa da Democracia.

José Sócrates agiu mal, mesmo muito mal. Com a pressa (e provavelmente a embirração), negociou em Bruxelas umas generalidades sem ter falado antes com o P.R. e a A.R. Limitou-se a avisá-los quando a coisa estava a acontecer. Foi tão desastrado que nos faz suspeitar que quis que o “chumbo” acontecesse.

Cavaco Silva agiu mal, mesmo muito mal. Primeiro porque agiu por aparente omissão. E mesmo no momento final, não resistiu a uma indelicadeza safada: antes que José Sócrates chegasse a S. Bento para anunciar o seu pedido de demissão (escassos minutos depois), a presidência emitiu o seu “press release”. Para quem esteve tetraplégico durante uma semana, é uma cura instantânea…

image Mas tudo isto são os fait divers da nossa medíocre vida política. O que há de novo é o facto de abundar quemimage tenha a “coragem” de falar para fora, e escrever em inglês, a dizer que o governo português não é credível, que a solvabilidade do país é duvidosa, etc. E não foi apenas um político inexperiente e insuflado que fez isto. Também uma senhora experiente em várias pastas ministeriais fez o mesmo. E isto é grave. Pessoas que fazem guerra política lá fora são perigosas e lembram que há usos patrióticos para o verbo defenestrar.

Depois da manifestação à rasca, os partidos da oposição perceberam que, seja qual for o resultado, podem aumentar a sua votação. Uns poderão ser governo, outros terão mais deputados e mais subsídios. Portanto todos ficam a ganhar…

O que aí vem é fácil de prever. A praga dos “wanna be’s” já está a caminho. “Jobs for the boys”. Portanto, atenção ao Diário da República, que vai ter nomeações de “fim-de-festa” antes que venham os senhores que se seguem para nomear os seus exércitos de assessores. Ao ritmo a que o sistema funciona, vamos ter no mínimo SEIS MESES SEM GOVERNAÇÃO EFECTIVA. Na A.R., a oposição vai apresentar propostas populistas, para dar substância à campanha eleitoral. alguns meses para eleições. Mais duas semanas para formar governo, um mês ou dois para apresentar o programa, etc. Se o PSD chegar a governar, vai justificar cada medida impopular com as culpas do governo anterior. Se houver coligação, tudo será mais caro, porque as coligações não partilham, apenas aumentam as despesas. Cavaco Silva vai ter saudades do primeiro mandato (de Sócrates, quem diria).

As eleições (que por definição são sempre virtuosas) vão custar dinheiro, mas serão trocos. A brincadeira desta semana vai custar muito mais do que isso. Entre acréscimo de juros de dívida, austeridade adicional, recessão, o prejuízo causado pelo “sobressalto cívico” pedido pelo P.R. ficará em 2 a 3 mil milhões de euros…

Há algo de profundamente errado no nosso sistema político. E a primeira de todas as reformas é a das pessoas que o ocupam. Muitas delas corrompem qualquer sistema.

2011/03/22

Má fé

Filed under: Escrita grossa — tinteirodigital @ 20:27

O Dr. Carvalho da Silva saiu do Conselho da Concertação Social antes do final e não assinou qualquer acordo. Podemos discordar, mas não podemos negar que é um atitude frontal e honesta. Já o Dr. João Machado deu o exemplo do que é a má fé e a falta de fiabilidade quando veio dizer que “este acordo está indexado a este governo” (sic) e que, “se o governo cair, o acordo não tem validade”. Como este senhor já não tem idade ou disponibilidade para ser ensinado, ficaria melhor a CAP em eleger pessoa mais culta e menos falsa. A honra da casa ficou salva pelas declarações dos dirigentes da UGT e da CIP. António Saraiva explicou em palavras simples o que é ser uma pessoa de bem.

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